ESPECIAL ORIGINAIS NETFLIX – O que achei da minissérie “Alias Grace”

Foto promocional da minissérie 'Alias Grace', mostrando Grace sendo levada pelos policiais na prisão

2017 foi o ano de Margaret Atwood. Depois do enorme sucesso de público e crítica da adaptação seriada de “The Handmaid’s Tale”, outros dois trabalhos da autora tiveram versões televisivas produzidas neste ano: a animação “Wandering Wenda”, ainda inédita nos EUA e baseada em seu livro infantil lançado em 2011, e a minissérie “Alias Grace”, baseada no romance escrito em 1996, que ficou conhecido no Brasil como “Vulgo Grace”. A minissérie estreou no início deste mês na Netflix, depois de ser exibida no Canadá.

Em meados do século XIX, no Canadá, a empregada irlandesa Grace (Sarah Gadon) é condenada pelo assassinato de seus patrões, mas conseguiu evitar a pena de morte por enforcamento e já segue presa há 15 anos. Um grupo de religiosos acredita que Grace foi induzida a admitir a culpa, uma vez que apresenta sintomas de amnésia, e contrata o Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft), um jovem médico analista da mente humana (pra não dizer psiquiatra), para mergulhar no passado da condenada a fim de descobrir a verdade.

Cena da minissérie 'Alias Grace', mostrando o Dr. Simon Jordan tomando o relato de Grace

Bastante próximo de um drama investigativo, o roteiro de “Alias Grace” recorre fundamentalmente à narração de sua protagonista, alternando entre relatos e devaneios. É bom observar que este recurso permite que o espectador apreenda uma visão parcial dos fatos e não necessariamente confiável, uma vez que a própria tem sintomas de amnésia. As incertezas e as especulações são constantes não só entre os personagens, mas também atingem o próprio espectador.

Baseada em fatos reais, a história de “Alias Grace” ainda traz à tona discussões importantes em torno da mulher, como o abuso sexual e o estupro. Infelizmente atemporais, todos esses temas são trabalhados com sensibilidade, especialmente porque as responsáveis pela série são mulheres também: além de Margaret Atwood e de Sarah Gadon, a adaptação ficou a cargo de Sarah Polley e a direção é de Mary Harron. Esta conjunção só beneficia a série e é só mais uma evidência da capacidade feminina de contar bem uma história em mídias audiovisuais.

Cena da minissérie 'Alias Grace', mostrando Grace e Mary Whitney

“Alias Grace” ainda se mostra extremamente rica em seus cenários, figurinos e caracterizações, que remetem com fidelidade à época da história. Falando nos cenários, as sequências em que Grace está trabalhando na fazenda rendem belas tomadas, especialmente ao ar livre. A trilha sonora é eficiente e ajuda a construir o clima das cenas, especialmente as mais tensas. E, no início de cada episódio, há excertos de textos que se relacionam com o que será visto, o que mostra um cuidado especial por parte da equipe de produção.

Pouco conhecida, Sarah Gadon impressiona com seu talento e por construir tão bem a protagonista, demonstrando um bom sotaque irlandês e domínio de tarefas domésticas (é fantástico notar a personagem costurando sem olhar, enquanto conta suas histórias). Mais do que isso, Sarah consegue dar tons diferentes para sua personagem, ao longo de seus relatos, com bastante naturalidade e convencimento. Seria mais do que justo vê-la nas indicações de Melhor Atriz em Minissérie das premiações que se aproximam.

Cena da minissérie 'Alias Grace', mostrando Anna Paquin como Nancy Montgomery

Mesmo com menos tempo de tela, Edward Holcroft é competente em suas expressões, explicitando a batalha interna do personagem, que tentando disfarçar seu envolvimento com a paciente. Outro bom destaque fica por conta de Rebecca Liddiard, a Mary Whitney, que alivia (em termos) várias cenas com seu sarcasmo e sua presença. A série ainda conta com a boa atuação de Anna Paquin e Zachary Levi, interpretando personagens dúbios, cujas verdadeiras intenções em relação à Grace ficam na base da especulação.

Além de entreter, “Alias Grace” nos faz perceber que os dias atuais não são tão distantes do passado, no que diz respeito aos maus tratos com as mulheres. Com seis episódios, há bastante objetividade, sem deixar de lado reflexões e pensamentos profundos dos protagonistas. Com uma conclusão que deixará os espectadores pensativos, a obra é uma das melhores produções da televisão em 2017, ao lado de “The Handmaid’s Tale”.

NOTA: 9.5 / 10

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