O que achei do filme “Mãe!” (2017)

Pôster do filme 'Mãe!' (2017)

Normalmente, não é fácil discorrer sobre um longa de Darren Aronofsky, já que o diretor e roteirista costuma brincar com o psicológico de suas personagens e fazer uso de alegorias e metáforas. É o caso de “Mãe!” (Mother!, 2017), seu novo filme, que está dividindo opiniões do público e da crítica, desde a sua première no 74o. Festival de Veneza.

Um casal vive isolado em uma casa no campo. O marido (Javier Bardem) é um escritor que está em busca de inspiração para escrever novos poemas e a esposa (Jennifer Lawrence) aproveita os dias para restaurar a casa onde vivem, afetada por um incêndio no passado. Mas a inesperada chegada de visitantes desconhecidos mexe com a rotina e com a vida do casal.

Cena do filme 'Mãe!' (2017), mostrando Jennifer Lawrence e Javier Bardem

Inicialmente, a história se mostra bastante intrigante, com um bom ritmo, como em um filme de suspense. Isso até o terceiro ato, que muda completamente a atmosfera do filme e faz com que a alegoria representada chegue ao seu ápice. A partir daqui, o exagero e o radicalismo são propositais, mas é difícil não se chocar com estas sequências.

Para se apreciar “Mãe!”, é necessário interpretar a história; não se deve encará-la literalmente. E, por mais que represente uma alegoria específica, é possível traçar outros paralelos com os acontecimentos do filme. A experiência pode variar de acordo com a interpretação do espectador e é isso que mais chama a atenção para “Mãe!”. E, ainda assim, nem tudo possui explicação.

Aronofsky optou por utilizar quase nenhuma música e priorizar o som ambiente ao longo dos primeiros atos, trazendo uma atmosfera mais intimista, o que se mostra uma escolha bastante acertada. A partir do terceiro ato, a trilha sonora passa a ser mais arrojada, assim como os efeitos visuais, que ajudam a criar o caos que se instaura.

Cena do filme 'Mãe!' (2017), mostrando Michelle Pfeiffer

Em uma de suas melhores performances, Jennifer Lawrence transmite a angústia e o sofrimento de sua personagem com bastante intensidade, ofuscando um pouco o seu colega Javier Bardem. Outra atuação de destaque é a de Michelle Pfeiffer, que não parece fazer o menor esforço para dar vida a sua problemática personagem. O longa ainda conta com a presença de Ed Harris, Domhnall Gleeson e seu irmão na vida real, Brian Gleeson, além de uma participação de Kristen Wiig.

“Ame-o ou odeie-o”: é assim que estão classificando as reações à “Mãe!”. É fato que este longa não é tão palatável quanto “Cisne Negro” (Black Swan, 2010) e isto já está influenciando a bilheteria e pode atrapalhá-lo em suas chances nas premiações de cinema que se aproximam. Mas a gama de interpretações que podem ser feitas a partir de sua história demonstra a profundidade talvez injustiçada do filme.

NOTA: 8.5 / 10

SPOILER: Selecione o texto a seguir para ler e entender a alegoria específica do filme e a alegoria que eu, como espectador, interpretei.

A história do filme mostra uma alegoria onde a personagem de Jennifer Lawrence representa a Mãe Natureza e o personagem de Javier Bardem representa Deus, o Criador. Os personagens de Ed Harris e Michelle Pfeiffer representam Adão e Eva e seus filhos representam Caim e Abel.

Na minha alegoria, o casal representa os dois lados de uma mesma pessoa. Javier Bardem é o lado mais impulsivo, criativo mas mais irracional, enquanto Jennifer Lawrence interpreta o lado mais metódico, introvertido. A casa onde moram representa uma pessoa. Quando somos muito mais impulsivos do que racionais, nossas estruturas se abalam e entramos em crise. Se isso não é revertido, desmoronamos, somos destruídos. Mas o lado impulsivo, criativo, nunca morre. Se quisermos tentar novamente, após uma derrota, esse lado nos revigora. Mas há de se ter o equilíbrio entre esses lados para a sobrevivência.

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