O que achei do filme “Bingo — O Rei das Manhãs”

Quem tem pelo menos 30 anos de idade com certeza se lembra do palhaço Bozo, que alegrava as manhãs do canal SBT com seu programa de televisão, uma versão brasileira do original americano, criado por Alan Livingston. Baseado nos bastidores da época em que Arlindo Barreto interpretou o personagem, “Bingo — O Rei das Manhãs” chegou aos cinemas na última semana e é uma verdadeira imersão no mundo televisivo dos anos 80.

Augusto Mendes (Vladimir Brichta) é um ator divorciado cujos únicos trabalhos são filmes de pornochanchada. Para agradar ao seu filho Gabriel (Cauã Martins), ele promete que irá fazer trabalhos mais familiares. Daí, Augusto faz um teste para ser o palhaço Bingo em um novo programa e é aprovado. Com o sucesso do programa, Augusto se deslumbra e acaba se envolvendo com drogas e mulheres e isso começa a se refletir na sua vida pessoal e profissional.

Cena do filme 'Bingo - O Rei das Manhãs', mostrando Bingo nos bastidores com a diretora

Roteirizado por Luiz Bolognesi, de “Elis” (2016), o filme troca os nomes dos palhaços e até mesmo das emissoras que disputavam a audiência das manhãs, mas não é difícil perceber as correspondências. Há também algumas diferenças em relação à realidade, como é de costume em cinebiografias. O ritmo do longa é bom e a história é um tanto objetiva, mesmo apresentando alguns devaneios do protagonista.

Em seu primeiro trabalho como diretor, Daniel Rezende mostra bastante segurança e ousadia, com direito ao uso de alguns planos-sequência, um deles com quase cinco minutos de duração, onde a câmera e os atores se movem praticamente sem parar. A caracterização, a ambientação e a trilha sonora cumprem muito bem o papel de transmitir a sensação de uma época oitentista; a trilha conta com canções de bandas como Metrô, Roupa Nova, Echo & The Bunnymen e até mesmo Yma Sumac, que soará familiar aos fãs de “RuPaul’s Drag Race” (2008—atualmente).

Cena do filme 'Bingo - O Rei das Manhãs', mostrando Augusto conversando com Lucia nos bastidores, enquanto bebe

Vladimir Brichta assumiu o papel de Bingo, por conta dos conflitos de agenda de Wagner Moura com as gravações de “Narcos” (2015-atualmente), e demonstra entrega ao personagem em uma das melhores interpretações de sua carreira. O filme ainda conta com as atuações de Leandra Leal e Ana Lúcia Torre e participações de Emanuelle Araújo (interpretando a rainha do rebolado, Gretchen) e Pedro Bial. Domingos Montagner também faz uma ponta como o palhaço Aparício, nesta que deve ser a última produção inédita com o ator, falecido no ano passado.

Mais do que uma cinebiografia, “Bingo — O Rei das Manhãs” é uma viagem aos bastidores da televisão nos anos 80. A obra contou com a colaboração do próprio Arlindo Barreto, mas é possível perceber que o ator não limitou o roteirista, ao retratar os temas polêmicos da sua vida. O filme é sucesso de crítica e, pouco a pouco, deve virar sucesso de público também.

NOTA: 9 / 10

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