O que achei do filme “Aquarius”

Cena do filme 'Aquarius', mostrando Sonia Braga em frente ao seu prédio

São poucos os filmes que conseguem abordar temas profundos de forma organizada, provocando reflexão em seus espectadores. Isso se torna ainda mais louvável quando se utiliza uma linguagem bastante acessível, capaz de atingir qualquer público. Não é uma tarefa fácil, mas o longa “Aquarius” a cumpre com tamanha perfeição que passa a ser um referencial do cinema nacional nos últimos anos.

Aquarius é o nome do edifício localizado na avenida Boa Viagem, no Recife, onde a jornalista aposentada e viúva Clara (Sonia Braga) mora e onde viveu grande parte de sua vida. O edifício está sendo visado por uma construtora, que conseguiu adquirir todos os apartamentos, menos o de Clara. Mesmo declarando que não vai vendê-lo, Clara passa a sofrer todo tipo de incômodo e ameaça, como forma de pressão para que abandone o seu querido lar.

Cena do filme 'Aquarius', mostrando Diego, Clara e Ladjane

Este é o segundo longa de Kleber Mendonça Filho, responsável por “O Som ao Redor” (2013), sucesso de crítica e que foi o representante brasileiro na disputa pelo título de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar de 2014; o filme não chegou a ser selecionado como finalista na categoria. Ambos os filmes se passam em Recife e têm um cunho realista e contemporâneo. Mas “Aquarius” se diferencia por ter mais ritmo e ser mais dinâmico que seu predecessor.

Embora a especulação imobiliária seja um dos temas centrais de “Aquarius”, a principal reflexão provocada pelo roteiro é sobre a memória afetiva, as lembranças que dão significância aos bens e objetos que possuímos. A falta de sensibilidade das novas gerações em relação a isso fica evidente em diversos momentos e, particularmente, na cena em que Clara está sendo entrevistada por uma garota, que não entende a importância sentimental de um dos discos de vinil que lhe é apresentado.

Cena do filme 'Aquarius', mostrando Clara conversando com Roberval

Engana-se quem pensa que Clara não se interessa por evoluções: seu apartamento é reformado, ela usa internet, é louca pra conhecer o namorado do filho gay, ouve streaming, tem iPhone. Mas a forte personagem, uma sobrevivente, tem maturidade e vivência suficiente para saber o que quer, reconhecer a importância de seus bens, que também carregam suas histórias. Ela não vai abrir mão das lembranças e do conforto de seu apartamento à beira-mar, nem da magia de seus discos de vinil, nem de seus móveis — alguns herdados de sua tia, que parecia nutrir os mesmos sentimentos.

Como em “O Som ao Redor”, a trilha sonora faz bastante diferença neste filme. Além dos efeitos sonoros e das falas, captadas com precisão, a seleção de músicas é curiosamente eclética e bastante atraente. Aqui vale destacar as cenas em que Clara ouve “Another One Bites the Dust”, do Queen, em um volume bastante elevado, e o momento em que ela e suas amigas estão em uma animada festa, ao som de Reginaldo Rossi. E também não posso deixar de mencionar a clássica “Hoje”, de Taiguara, que abre e encerra o filme magistralmente.

Cena do filme 'Aquarius', mostrando Clara saindo do mar

O elenco está bastante alinhado no longa e muitas cenas fluem de forma bastante natural. Outra vez, volto a citar a cena da festa, na qual as atrizes estão bem descontraídas, conversando como amigas de décadas. Outra cena, com uma força sutilmente grande, é quando Clara e seus filhos estão discutindo sobre a proposta da empresa. O longa marca uma das maiores (senão a maior) performances de Sonia Braga, que domina completamente sua personagem (e o filme). O elenco ainda conta com a participação de Maeve Jinkings e Irandhir Santos, que também fizeram parte de “O Som ao Redor”.

Infelizmente, “Aquarius” está envolto em controvérsias e polêmicas que, embora não devessem, vem influenciando negativamente o público e até mesmo as distribuidoras. O pior é que o conteúdo da obra é muito maior do que qualquer picuinha política. É uma pena que um dos melhores filmes do cinema nacional não receba o prestígio que merece. O filme foi aplaudido de pé no Festival de Cannes deste ano e está na seleção para ser representante brasileiro na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar de 2017. Sem dúvida, dos filmes nacionais, é o candidato que tem mais força para levar essa indicação.

Atualização em 12/09: Infelizmente as picuinhas políticas falaram mais alto e “Aquarius” não foi escolhido como representante brasileiro para tentar uma vaga no Oscar do ano que vem. A chance ficou com “Pequeno Segredo” (2015), filme que deve voltar a ser divulgado na mídia nos próximos meses.

NOTA: 10 / 10

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