O que achei de “Mr. Robot – Sociedade Hacker” – Temporada 2

Cena de episódio da série 'Mr. Robot', mostrando Elliot atendendo a um telefone

A segunda temporada de “Mr. Robot – Sociedade Hacker” (Mr. Robot) terminou este mês na TV por assinatura e deixou um misto de sensações dentre seus espectadores. Alguns continuam especulando várias teorias sobre os mistérios da série enquanto aguardam pela continuação; outros desistem de entrar na viagem do criador da série, Sam Esmail. Ambas são atitudes compreensíveis, pois a série não possui uma estrutura convencional e, ao mesmo tempo que choca com sua realidade crua, exige uma percepção mais apurada por parte do espectador para uma maior compreensão das entrelinhas do que está sendo mostrado.

A trama da segunda temporada da série se passa após o hacking da E-Corp e é bem interessante e, ao mesmo tempo, perturbador observar todas as consequências que o ataque trouxe para o mundo. Embora o ataque tenha sido executado pela fsociety, fica claro que o apoio da Dark Army não foi por acaso: existe uma intenção maior (e bota maior nisso) por parte de seu líder, Whiterose (BD Wong). Ao mesmo tempo, a temporada mostra Elliot (Rami Malek) tentando lidar com sua esquizofrenia do seu jeito – seguindo o mantra “Eu estou no controle”. No entanto, Mr. Robot está lá para mostrar que as coisas não são do jeito que Elliot quer pensar que sejam – remetendo ao mantra desta temporada “Controle é uma ilusão”.

Montagem com fotos promocionais da 2a temporada da série 'Mr. Robot' mostrando Elliot, Mr. Robot, Tyrell e Philip Price

Nesta temporada, o diretor / roteirista da série resolveu brincar bastante com o conceito daquilo que é real e o que é imaginário. Assim como ocorreu na primeira temporada, nem tudo o que é mostrado aconteceu de verdade. Neste sentido, aqui também há uma reviravolta na história, que não é tão espetacular e que já podia ser prevista facilmente desde os primeiros episódios da temporada – ela demora tempo demais para ser esclarecida, até. Por outro lado, o sumiço de Tyrell (Martin Wallström) continua sendo algo tão misterioso (as explicações são muito rasas até o momento) que já rendeu inúmeras discussões nas redes sociais sobre a possibilidade de ele ser um alter ego de Elliot. Mas, depois do episódio final desta temporada, será que esta teoria ainda tem algum fundamento?

A imersão no psicológico dos personagens é tão profunda nesta temporada que pode não agradar àqueles que se identificaram com o ritmo estabelecido pela primeira temporada. O clima aqui é bem mais pesado. Como eu já disse, alguns eventos se arrastam por um tempo demasiado longo, por mais que sejam interessantes. É o caso da história de Ray (Craig Robinson), que pede ajuda a Elliot para colocar seu site no ar novamente. A conclusão desta história é bem simplória e, não fosse o absurdo mas importantíssimo episódio em que Elliot tem uma paranoia inspirada em uma sitcom dos anos 80 (homenageando a série “Alf, o ETeimoso”), seria completamente dispensável.

Montagem com fotos promocionais da 2a temporada da série 'Mr. Robot' mostrando Joanna, Darlene, Dominique e Angela

Apesar de deixar muitos mistérios no ar, a segunda temporada consegue nos contextualizar sobre alguns pontos que ficaram sem explicação na primeira temporada, como a formação do fsociety e a origem do plano para destruir a E-Corp, por exemplo. Também é possível entender (em parte) as razões que levaram Angela (Portia Doubleday) a aceitar o emprego na E-Corp, mas seu comportamento dúbio nesta temporada vem dando margem a inúmeras especulações – especialmente depois dos últimos episódios.

A direção de arte e a trilha sonora estão cada vez mais impressionantes. A série já é conhecida pelos enquadramentos não-convencionais e pelo nível de detalhes em cada ambiente. Mas o episódio da “paranoia sitcom” muda tudo completamente e a impressão que se tem é de que se está assistindo a outra série – um grande mérito da equipe de produção. Também é importante mencionar o uso “não-hollywoodiano” da tecnologia, o que resulta em situações críveis e bastante realistas.

Cena de episódio da 2a temporada da série 'Mr. Robot, mostrando Elliot e Mr. Robot ao lado de Leon

Em uma série onde o psicológico é tão explorado, a atuação deve ser precisa: sem exageros, mas sem apatia. O elenco de “Mr. Robot” consegue ser altamente memorável inclusive pelas sequências mais simples. Rami Malek é o grande destaque, mostrando um grande domínio de um personagem tão complexo; seu trabalho inclusive foi reconhecido na última cerimônia do Emmy, onde recebeu o prêmio de Melhor Ator de série de Drama pelo piloto da 1a. temporada. Impossível não falar de Christian Slater, que contracena com Malek em praticamente todas as cenas de uma forma tão natural que se torna bastante crível que o Mr. Robot é um alter-ego de Elliot.

Embora outros atores também mereçam menção (Carly Chaikin e Portia Doubleday cresceram demais com suas personagens), gostaria de destacar o trabalho de Grace Gummer e BD Wong. A agente Dominique, interpretada por Gummer, só surgiu nesta temporada, mas a atriz conseguiu desenvolver muito bem a personalidade complexa e obstinada da personagem, sendo responsável por ótimas sequências. E BD Wong, depois de uma ponta na primeira temporada, interpretou Whiterose / Zhang com sutileza e classe, sem cair no temido estereótipo do vilão afetado.

Cena de episódio da 2a. temporada de 'Mr. Robot', mostrando Whiterose

A série tem sido aclamada pela crítica e, apesar da baixa audiência desta temporada nos EUA, a próxima já está garantida. Mas, se depender de Sam Esmail, ainda acompanharemos a história de Elliot / Mr. Robot por mais 2 ou 3 temporadas. A série é exibida no Brasil pelo canal Space. Na TV aberta, a Record exibiu a primeira temporada no primeiro semestre deste ano; ou seja, esta temporada não deve chegar lá antes do ano que vem.

PS: A nota original deste post foi alterada após sua publicação.

NOTA: 9 / 10