O que achei do filme “Tangerine”

Foto promocional do filme 'Tangerine'

Para se fazer um bom filme, não é necessário um grande orçamento, nem atores experientes. Basta que o espectador consiga se relacionar com a história e com as personagens. E é nisto que o filme independente “Tangerine” (2015) tem êxito. Inteiramente filmado com 3 iPhones 5S, o longa passou por aqui em alguns festivais no ano passado (como o Festival do Rio) e também foi exibido no início deste ano no Cinema do Dragão — Fundação Joaquim Nabuco, em Fortaleza.

No filme, assim que Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez) sai da prisão, ela encontra sua melhor amiga Alexandra (Mya Taylor). Durante a conversa, Alexandra acaba soltando que o namorado / cafetão de Sin-Dee a traiu com uma de suas prostitutas. Transtornada, Sin-Dee decide rodar a cidade de Los Angeles para encontrá-los e pôr as coisas à limpo.

Cena do filme 'Tangerine', mostrando Sin-Dee e Alexandra andando nas ruas de L.A.

Dirigido e co-roteirizado por Sean Baker, “Tangerine” teve um orçamento minúsculo de US$ 100 mil. De acordo com o diretor, a questão financeira foi determinante para que as filmagens fossem realizadas com iPhones, para o ceticismo de quase todos os envolvidos. Mas o resultado final passa longe das filmagens tremidas e do áudio ruim das gravações amadoras a que costumamos assistir. Isso por conta da decisão de se investir em equipamentos para se realizar uma boa captação de áudio e reduzir as trepidações da câmera, além de softwares para o tratamento das imagens captadas. Por conta da praticidade e dos custos, não é difícil acreditar que outros cineastas repetirão esse processo em seus filmes.

As situações que “Tangerine” apresenta não fogem muito da realidade que existe em Los Angeles. Por sinal, as intérpretes de Sin-Dee e Alexandra fizeram parte do trabalho de pesquisa desenvolvido pelos roteiristas: além de serem transgêneros, também tiveram envolvimento com prostituição. Apesar de fazer um bom uso desse background, a história principal é um tanto simples e acaba se tornando um pouco arrastada durante o filme. Mas as cenas que demonstram a amizade de Sin-Dee e Alexandra são ótimas (principalmente a sequência final).

Foto de Mya Taylor no filme 'Tangerine'

Falando nas protagonistas, é bom salientar que nem Kitana Kiki Rodriguez, nem Mya Taylor tinham experiência anterior com atuação. Considerando isso, o trabalho de ambas está muito bom, principalmente o de Mya, cujo talento foi reconhecido com o prêmio de Melhor Atriz no Independent Spirit Awards deste ano (a primeira atriz transgênero a ganhar este prêmio). As duas transmitem uma cumplicidade muito grande em suas cenas e fazem o espectador acreditar que a amizade das personagens é bem sincera.

As cenas do filme fazem uso de tonalidades quentes e bastante saturação, de forma proposital, culminando em um aspecto alaranjado, de onde saiu o nome “Tangerine”. E, graças ao investimento nos equipamentos de captação de áudio, a trilha sonora do filme é excelente. É interessante perceber a quantidade e a qualidade dos sons (entre barulhos e vozes) durante a discussão no Donut Time, perto do final do filme.

Foto da filmagem de uma cena do filme 'Tangerine'

Mesmo diante de poucos recursos, “Tangerine” tem um resultado primoroso do ponto de vista técnico. Ao mesmo tempo que a história principal do filme deixa um pouco a desejar, o carisma das personagens e sua realidade acabam chamando a atenção. E sempre precisamos de bons filmes que enfoquem a realidade, principalmente a das minorias.

NOTA: 8 / 10

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