O que achei de “Lemonade”, álbum de Beyoncé

Capa do álbum 'Lemonade', de Beyoncé

Em 2013, Beyoncé pegou todos de surpresa com o lançamento de um álbum visual, composto por 14 músicas com vídeos para cada uma delas (e mais 2 extras), que acabou se tornando sucesso mundial de crítica e de vendas. Superar ou, ao menos, alcançar o mesmo êxito desse álbum era um grande desafio, mas Beyoncé não se intimidou. Pelo contrário, com o lançamento do primeiro single “Formation”, em Fevereiro deste ano, ficou claro que a artista pretendia causar um impacto ainda maior com o sucessor. Depois de dar dicas através de suas redes sociais, no último dia 23, Beyoncé lançou “Lemonade”, um novo álbum visual que, inicialmente, foi disponibilizado com exclusividade através da plataforma de streaming Tidal, de seu marido Jay-Z. O sucesso foi instântaneo: algumas músicas do álbum já figuram entre as mais vendidas no iTunes brasileiro; nos EUA, o álbum continua na liderança dos mais vendidos.  “Lemonade” também deve estrear em 1o. lugar na parada de álbuns mais vendidos da Billboard.

O nome do álbum, ao contrário do que muitos veículos de comunicação estão reproduzindo, é uma referência ao discurso que a avó de Jay-Z fez durante a festa de seu aniversário de 90 anos: “Eu tive meus altos e baixos, mas sempre encontrei uma força interna que me colocava pra cima. Dos limões que me serviram, eu fiz limonada”. E o álbum é exatamente sobre isso, uma jornada em busca de paz interior, de redenção própria, a partir de uma grande adversidade. “Lemonade” trabalha este conceito de uma forma extremamente concisa e ainda consegue ser dinâmico ao variar entre estilos musicais que estão fora da zona de conforto de Beyoncé (por assim dizer), como o Rock e o Country.

A sequência de músicas de “Lemonade” também foi muito bem planejada e dá uma ideia da trajetória que Beyoncé percorreu para “fazer a limonada”. O álbum abre com a melancólica “Pray You Catch Me”, uma das 2 parcerias de Beyoncé com o britânico James Blake, onde já é notória a vibe de mágoa e desconfiança que se segue ao longo de outras faixas do álbum. Em seguida, temos “Hold Up”, co-produzida por Diplo, que é bem divertida e sagaz, seguindo com a sensação de desconfiança. Daí, temos o estouro da agressiva “Don’t Hurt Yourself”, um rock em parceria com Jack White, onde Beyoncé dá o recado: “se isso acontecer de novo, você vai perder sua esposa”. Pra completar o momento de raiva, em “Sorry”, Beyoncé diz “Olhando meu relógio, ele deveria estar em casa / Hoje eu me arrependo da noite em que coloquei a aliança”. Seria uma referência para “Single Ladies”? No fim, Beyoncé está dando o dedo do meio e mandando o marido procurar a “branquela de cabelo bom”.

A partir daqui, o álbum envereda para um lado mais introspectivo. Em “6 Inch”, colaboração com The Weeknd, Beyoncé reafirma seu posicionamento como mulher, trabalhadora e confiante. Com “Daddy Lessons”, uma deliciosa investida no country, Beyoncé lembra de quando seu pai a ensinou a ser forte e enfrentar as adversidades. Uma curiosidade é que, ao fim da canção, há uma participação da filha da artista, Blue. Apesar de ser a mais fraca do álbum, “Love Drought” serve como um balanço do relacionamento, frisando que a união dos dois é capaz de “mover montanhas”.

A limonada começa a tomar forma com “Sandcastles”, que também abre a poderosa sequência final do álbum, que é a minha favorita. Aqui, Beyoncé percebe que o amor que sente é maior do que suas mágoas, enquanto canta ao som de um piano, com uma voz incrível e carregada de emoções. “Forward”, a segunda parceria com James Blake é um interlude, simples e curto, mas genial. Depois de encontrar a sua paz interior, Beyoncé se volta para o próximo, para as causas sociais, na excelente e retumbante “Freedom”, em parceria com Kendrick Lamar. Por fim, a artista encerra a jornada com a ótima “All Night Long”, outra faixa co-produzida por Diplo, concluindo que “o amor é a maior arma para se vencer a guerra causada pelo sofrimento”. “Formation” é a última e uma das melhores faixas do álbum. Atualmente, a relevância desta música é inquestionável e não precisa de mais nenhuma contextualização, embora ela quase possa ser considerada como uma faixa-bônus. De fato, na parte visual do álbum, esta música só é trabalhada nos créditos.

Se a parte visual de “Beyoncé” (2013) já era bem produzida, aqui o nível aumentou muito. Desta vez, os vídeos das músicas estão inseridas em um contexto único, como um filme, dividido em 11 estágios. Ao longo do filme, Beyoncé cita trechos de textos escritos pela poetisa somali Warsan Shire. Também há a participação de personalidades como a modelo Zendaya e a tenista Serena Williams, além de imagens de arquivo mostrando Beyoncé com seu pai e o discurso que originou o nome “Lemonade”. A HBO americana exibiu este filme em sua programação no dia do lançamento do álbum.

Beyoncé merece todos os méritos por “Lemonade”, uma obra de arte que transparece todo o esforço, o cuidado e a dedicação que ela teve durante seu desenvolvimento. Isso sem mencionar a coragem não só de compartilhar suas experiências pessoais (boas e ruins) com o mundo, como também de jogar luz sobre as mazelas que a sociedade negra ainda enfrenta. “Lemonade” é um exemplo de um trabalho cujo impacto resvala em várias esferas e que, por conta disso, chega a incomodar – em outras palavras, é um álbum marcante e que faz diferença. Sem dúvida, é o melhor álbum de Beyoncé até hoje e provavelmente ela mesma sabe disso.

PS: Este post foi feito com base na versão digital do álbum, que está disponível no Tidal e no iTunes. O lançamento da versão física de “Lemonade” será em Maio.

Atualização às 13h15: Com o lançamento de seu novo álbum “Views”, o rapper Drake tirou Beyoncé da liderança de álbuns mais vendidos no iTunes americano. Pode ser algo momentâneo, já que o álbum foi lançado hoje.

NOTA: 10 / 10