O que achei do filme “Deadpool”

Pôster do filme 'Deadpool'

Inaugurando a safra deste ano de filmes baseados em super-heróis dos quadrinhos, “Deadpool” estreou nos cinemas no dia 12 do mês passado, depois de criar bastante expectativa com seus trailers e imagens de divulgação, ao longo do último ano. Mesmo com uma censura elevada (nos EUA, foi classificado como “R”, sendo proibido para menores de 17 anos; no Brasil, foi proibido para menores de 16), o longa está fazendo um enorme sucesso e já se tornou a maior bilheteria mundial de 2016 (que acabou de começar, rs). Diferente de qualquer outro filme da Marvel, a linha entre a comédia e a ação aqui é bastante tênue.

“Deadpool” conta a história de Wade Wilson (Ryan Reynolds), ex-agente das Forças Especiais e atualmente um mercenário (mais ou menos um assassino de aluguel), que descobre ter um câncer terminal. Para sobreviver à doença, ele se submete a uma experiência científica clandestina, que acaba desfigurando seu corpo, mas lhe dá poderes. Recuperado, ele decide ir atrás dos responsáveis em busca de vingança.

Cena do filme 'Deadpool', mostrando o próprio

O personagem Deadpool já havia feito sua estreia cinematográfica há alguns anos, no temível “Wolverine: O Filme” (X-Men Origins: Wolverine, 2009) já sendo interpretado por Ryan Reynolds.  Desde então, vinha se tentando produzir um filme próprio, que realmente fizesse jus ao personagem. Enfim, somente em 2014, a Fox deu sinal verde para a produção do filme, depois que um vídeo de teste, produzido por uma empresa de efeitos especiais, vazou na Internet e fez um grande sucesso.

O roteiro toma o cuidado de manter uma das mais notáveis características de Deadpool: o rompimento da “quarta parede”. Assim como nos quadrinhos, o personagem interage frequentemente com o público, sendo também responsável por explicar o contexto de alguns segmentos, por meio de flashbacks. Também fica bem claro desde o começo que, como nos quadrinhos, Deadpool é um anti-herói, dadas suas motivações e comportamentos.

Cena do filme 'Deadpool', mostrando Wade Wilson e Vanessa

Entretanto, por conta do teor do personagem, o filme acaba tentando ser engraçado ao extremo, fazendo muitas piadas, inclusive visuais e sonoras (algumas não fazem rir, só constrangem). Várias delas possuem referências, então é possível que nem todas sejam compreendidas pelo grande público. Em muitos momentos, as expressões, as gracinhas e as frases de Deadpool acabam lembrando “O Máskara” (The Mask, 1994), como quando ele puxa a cueca dos adversários ou ao se surpreender quando um deles consegue fugir. Essa tentativa de tornar o filme descolado e hilário fez com que ele passasse muito próximo do limite do trash. Por exemplo, em determinada cena, a lembrança imediata que vem à cabeça é a do mordomo esquisito de “Todo Mundo em Pânico 2” (Scary Movie 2, 2001), o que não é uma boa coisa.

Outro problema do filme é que a importante tentativa de se conectar ao mundo “X-Men” (pois Deadpool é um mutante) acaba não sendo bem sucedida. Devido a restrições orçamentárias e questões de licenciamento (com as quais o próprio Deadpool brinca no filme), os únicos personagens da franquia mutante que dão as caras são o gigante Colossus (Stefan Kapicic), em uma versão absolutamente diferente, e a até então desconhecida Míssil Megassônico (Brianna Hildebrand). Não há contextualização alguma sobre como Colossus conheceu Deadpool e Míssil mais parece uma figurante. A história poderia ter sido muito mais interessante se os mutantes clássicos tivessem aparecido. Definitivamente, neste ponto, este filme ficou devendo.

Cena do filme 'Deadpool', mostrando o próprio com Colossus e Míssil

O traje de Deadpool está muito fiel ao original — em sua versão final, pois Wade foi aperfeiçoando seu conceito original, assim como Peter Parker fez na saga “Homem-Aranha”. Por sinal, a máscara do traje é animada para dar mais ênfase às expressões de Deadpool, dando uma característica bem próxima ao de um desenho animado. Os efeitos visuais estão muito bem produzidos, com destaque para a sequência de abertura do filme, que mostra uma cena estática enquanto a câmera passeia por vários ângulos. A trilha sonora é bem variada e contribui para dar o tom engraçado de muitas cenas.

Cena do filme 'Deadpool', mostrando o próprio sentado em um viaduto

Ryan Reynolds está bastante dedicado ao personagem, sem pudores (ele fica pelado em algumas cenas) e demonstra segurança quando é Wade Wilson. Como Deadpool, ele faz um bom trabalho ao utilizar sua expressão corporal enquanto interage com os personagens, embora lembre o personagem Máskara em algumas cenas. O filme também conta com Morena Baccarin, como sua namorada Vanessa, que nos faz ter alguma simpatia por sua personagem, mesmo com um roteiro que não lhe dá muito material. Ah, e não seria um filme Marvel sem a participação especial de Stan Lee.

No fim das contas, comparado com os quadrinhos, “Deadpool” está bastante fiel: conta com um humor negro e altamente sarcástico, com muita violência e uma temática bastante adulta, que pode constranger o já acostumado espectador dos filmes anteriores da Marvel, mais voltados para os adolescentes. E é por isso que, possivelmente, o personagem só virá a mostrar seu potencial total em seus próprios filmes, já que a franquia X-Men dificilmente vai ser ajustada para comportar uma eventual participação dele. O filme tem uma cena extra após os créditos, que faz referência a um filme famoso dos anos 80.

NOTA: 7,5 / 10