O que achei do filme “A Garota Dinamarquesa”

Pôster do filme 'A Garota Dinamarquesa'

Após fazer um grande sucesso encarnando Stephen Hawking em “A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything, 2014), Eddie Redmayne volta a assumir o papel de uma personagem forte em seu novo filme, “A Garota Dinamarquesa” (The Danish Girl). O longa, que estreia hoje nos cinemas brasileiros, está entre os indicados nas principais premiações de cinema, como o Oscar (que ocorre no fim deste mês). Mesmo tendo sido indicado como Melhor Ator, Redmayne não chegou a levar esse prêmio nas cerimônias mais recentes (Golden Globes, SAG, Critics). E isto é justificável, por conta do resultado final do filme.

A obra nos apresenta Einar Wegener (Eddie Redmayne) e sua esposa Gerda (Alicia Vikander), dois pintores de Copenhagen nos anos 20. Para poder continuar com o retrato de uma mulher, no qual vem trabalhando, ela pede que Einar vista roupas femininas e pose como uma mulher. Isto funciona como um catalisador para que Einar note o quanto se identifica com esse universo, assumindo até uma nova personalidade, chamada Lili Elbe. Inicialmente, Gerda pensa que se trata de uma brincadeira e até ajuda Lili a tomar vida. Mas ela acaba percebendo que isto é mais sério do que ela imaginava, conforme Einar vai deixando de existir para dar lugar à Lili.

Cena do filme 'A Garota Dinamarquesa', mostrando Einar posando de vestido para Gerda

O roteiro do filme, de Lucinda Coxon, se baseou no livro homônimo, escrito por David Ebershoff e publicado em 2000. O livro, por sua vez, é uma versão bastante ficcional da verdadeira história de Einar (que supostamente é a primeira pessoa que se submeteu a uma cirurgia de mudança de sexo). Além da maioria das passagens que tratam do descobrimento de Lili por parte de Einar, Ebershoff inventou praticamente todos os demais personagens do filme. Apesar de mostrar o processo da transformação de Einar em Lili, algumas cenas não correspondem ao que realmente ocorreu. Ao contrário do que a divulgação possa dar a entender, é bom salientar que este não é um biofilme.

Cena do filme 'A Garota Dinamarquesa', mostrando Lili conversando com Gerda

Dito isto, duas coisas fazem com que o resultado do filme seja diferente do que normalmente se esperaria dele: o roteiro e a incrível atuação de Alicia Vikander. O longa alterna entre os conflitos de Einar / Lili e os conflitos de Gerda. Enquanto a primeira está enfrentando uma grande crise de identidade, a outra titubeia em relação à incondicionalidade do amor pela pessoa com quem se casou. Isto ocorre de forma tão balanceada que o título deste filme poderia ser escrito no plural, já que praticamente se trata das duas protagonistas. E, embora Eddie Redmayne tenha um biotipo muito favorável para a personagem e demonstre os mais variados tons de delicadeza (até mesmo quando representa Einar), Vikander o ofusca em grande parte do filme, tanto por conta de seu talento como por conta do roteiro. Por exemplo, algumas das atitudes de Lili são tão egoístas, se comparadas à dedicação e ao apoio de Gerda, que não seria estranho ver espectadores com mais compaixão por esta última. Uma curiosidade é que a indicação de Alicia Vikander é pelo Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, pois o estúdio do filme a inscreveu nesta categoria por acreditar que assim ela teria mais chances de ser indicada e levar o prêmio.

Cena do filme 'A Garota Dinamarquesa', mostrando uma Gerda emocional

O longa consegue reproduzir a estética e o clima da época, que se alia aos figurinos para construir cenas que são visualmente lindas, justificando as indicações que recebeu ao Oscar nas categorias de Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino. Embora não seja fiel aos fatos e seu roteiro acabe perdendo um pouco do foco, “A Garota Dinamarquesa” é um filme importante por provocar reflexões ao evidenciar que o transtorno de identidade de gênero é um problema que existe desde o início do século passado e que as pessoas que sofrem deste transtorno necessitam de apoio e compreensão. Irônico é saber que, apesar de ser conhecida há quase 100 anos, esta condição ainda causa indignação e recriminação.

NOTA: 8,5 / 10

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