O que achei de “Boi Neon”

Pôster do filme 'Boi Neon'

Há quem diga que o cinema nacional só é feito de comédias e pastelões sem graça. Mas existem produções de grande qualidade, que infelizmente não chegam ao circuito comercial de muitos estados, causando esta má impressão. Uma destas produções é “Boi Neon”, dirigido e roteirizado pelo pernambucano Gabriel Mascaro. Lançado em 2015 em festivais internacionais, o filme estreou de forma modesta em alguns cinemas no início deste ano (em Fortaleza, no Cinema do Dragão — Fundação Joaquim Nabuco).

No longa, Iremar (Juliano Cazarré) trabalha como preparador de bois de vaquejada, viajando pelo sertão nordestino ao lado da caminhoneira Galega (Maeve Jinkings), sua filha Cacá (Alyne Santana) e seus colegas Zé (Carlos Pessoa) e Mário (Josinaldo Alves). Apesar das condições desfavoráveis, ele sonha em trabalhar com algo bem diferente de sua profissão: ele deseja ser estilista. Será que Iremar vai conseguir superar a sua dura realidade para concretizar o seu sonho?

O filme é fruto de uma co-produção entre Brasil, Uruguai e Holanda, mas o cenário é o sertão nordestino. Iremar passa por localidades como Picuí (na Paraíba) e Caruaru (em Pernambuco), onde ocorrem eventos de vaquejada, nos quais ele e seus colegas trabalham. Pela característica do seu trabalho, eles viajam muito, percorrendo as estradas rurais. Normalmente, montam pontos de apoio, onde improvisam espaços para jantar e tomar banho, além de dormir no próprio caminhão.

“Boi Neon” é um longa que quebra paradigmas, a começar por seu mote: ao mesmo tempo que Iremar exerce funções braçais sem nojo de nada, ele também tem delicadeza e senso estético. Isso fica evidente nas cenas em que consola Cacá e quando demonstra ser conhecedor de perfumes. Outro exemplo de transgressão, por assim dizer, é mostrar que uma caminhoneira não necessariamente deve ser masculina. Pelo contrário, Galega inclusive encomenda uma roupa bem sensual para Iremar.

Foto de cena do filme 'Boi Neon', mostrando Galega em seu caminhão

Apesar de retratar uma história ficcional, o filme flerta com o gênero de documentário ao apresentar as vaquejadas, o modo como os bois são tratados (e os cavalos, para efeito de comparação), os leilões dos animais… Mostrando estas cenas sem tomar partido, o longa acabando provocando a reflexão dos espectadores. Estas sequências são realizadas por não-atores, algo que está se tornando tendência no cinema nacional.

A fotografia do filme evoca o sertão, mas de uma forma colorida, que normalmente não é vista em filmes assim. A trilha sonora da obra possui músicas bem conhecidas dos nordestinos, como a clássica “Meu Vaqueiro, Meu Peão”, da banda Mastruz com Leite. Uma das minhas preocupações do cinema nacional, a captação do áudio, está excelente. É possível ouvir bem os sons dos animais, do público das vaquejadas, dos locutores dos leilões e, claro, dos atores.

Foto de cena do filme 'Boi Neon', mostrando Cacá sentada em um sofá velho

Aproveitando, Juliano Cazarré aparenta realmente ser nativo da região, com seu sotaque e trejeitos, muito bem executados. Ele está bem convincente, inclusive demonstrando todo o cuidado e esmero necessário nas cenas em que está trabalhando com seus manequins ou rabiscando roupas nas fotos de modelos em revistas sensuais. Maeve Jinkings também faz um bom trabalho, mas quem rouba a cena são justamente os “novatos” Alyne Santana e Carlos Pessoa, que é vaqueiro na vida real. As cenas com os dois são muito espontâneas e divertidas, graças ao excelente trabalho da preparadora de elenco Fátima Toledo, que trabalhou em “Cidade de Deus” (2002). O filme ainda conta com a participação de Vinícius de Oliveira, famoso como o garotinho Josué de “Central do Brasil” (1998), agora irreconhecível com seu cabelo longo de chapinha.

Algumas cenas de “Boi Neon” vão fundo na intenção de quebrar paradigmas e podem causar desconforto nos mais conservadores, o que provavelmente é a intenção de Mascaro. Apesar dos diversos acontecimentos, o ritmo do filme é bem constante, funcionando quase como um “documentário ficcional”. Exibido nos festivais de Veneza e Toronto, o longa é uma ótima evidência do cinema pernambucano que vem crescendo nos últimos anos.

NOTA: 8,5 / 10

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