O que achei do curta “Simulacro”

Cena do curta 'Simulacro', mostrando o homem de boca aberta em frente ao espelho

“Simulacro” (2015) é o primeiro curta realizado pela produtora carioca Rebuliço, gravado de forma independente com um orçamento limitado. É um filme de ficção, dirigido por Miguel Moura, que busca provocar uma discussão sobre o comportamento da sociedade contemporânea a partir da história de de um homem que praticamente vive ao redor de sua televisão.

A temática dos simulacros já vem sendo explorada na literatura sócio-filosófica há algumas décadas. O texto mais conhecido é o tratado “Simulacros e Simulações”, publicado em 1981 por Jean Baudrillard, referenciado no filme “Matrix” (The Matrix). O pensador afirma que a realidade vivida pela sociedade foi substituída por símbolos e signos, implicando que o que se experimenta atualmente é apenas uma simulação da realidade, o que ele chama de hiper-realidade. O francês Guy Debord, contemporâneo de Baudrillard, prega a existência de uma preferência pela imagem à coisa real, pela representação à realidade.

Em outras palavras, os mecanismos de comunicação em massa, como a televisão e a Internet, estão formando uma sociedade mais alienada. Esta sociedade prefere a fuga da realidade, vivendo em função destes mecanismos. O curta trata exatamente disso, ao mostrar um personagem (vivido por Samuel Toledo), extremamente apático e sua rotina monótona. Nas cenas do filme, ele não chega a sair de sua casa e alterna entre assistir à televisão e navegar na Internet. Um dos sites visitados por ele, inclusive, é um site de compras; em uma das cenas, é possível ver que o homem divide o espaço de sua sala com diversos equipamentos, evidenciando o consumismo como uma consequência desta alienação.

Cena do curta 'Simulacro', mostrando o homem se enxergando na televisão

A boa interpretação de Samuel Toledo também permite perceber que estamos diante de um personagem perturbado psicologicamente, provavelmente por conta da lavagem cerebral a que se submete diariamente. Demonstra inquietação e, aparentemente, tenta se encontrar, nas várias cenas em que fica em frente ao espelho de seu banheiro. Mas a única vez em que ele esboça uma reação é quando se vê na tela da televisão. E, ao fazê-lo, acaba agindo como um primata que enxerga o seu reflexo em um espelho pela primeira vez, em uma das cenas mais emblemáticas do curta.

Abordando um tema que está presente na sociedade atual, o roteiro de Miguel Moura e Gabriela Giffoni tem um tom crítico e requer uma abstração grande. Por isso, talvez não seja apreciado justamente pelo público que busca retratar. Mesmo assim, “Simulacro” tem sido visto com bons olhos e já foi exibido em festivais brasileiros e internacionais, como o Short Film Corner de Cannes, em 2015.

NOTA: 7,5 / 10

PS: Este texto foi produzido originalmente para o curso de Crítica Cinematográfica que realizei este mês.

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